História das eleições no Ceará – Mauro Benevides: uma zebra previsível

“A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado” Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio.
Resultado de imagem para Mauro Benevides 1974Resultado de imagem para Mauro Benevides 1974Resultado de imagem para Mauro Benevides 1974Resultado de imagem para Mauro Benevides 1974
“Aonde a vaca vai, o boi vai atrás…” Foi com a paródia desta música do brega João da Praia que a campanha de Mauro Benevides a senador, em 1974, pelo MDB, foi entoada na serra, no sertão e no litoral do Ceará. Os tempos eram de chumbo e o MDB, na vigência do bipartidarismo, uma oposição consentida pelos militares que abrigaram seus áulicos civis na Arena. O jingle da campanha do cacique da oposição ressoava estado adentro em versos que anunciavam: “Aonde o Mauro vai, o povo vai atrás.” O Ceará era, então, território dos coronéis de patente. César Cals ocupava a chefia do governo desde 1971. Adauto Bezerra exercia mandato de deputado estadual. E finalmente Virgílio Távora era integrante do colendo Senado da República.
FONTE : GOOGLE
 
Os governadores da época eram biônicos, pois a ditadura além de cassar os votos dos brasileiros para presidente, também deixou o cargo executivo estadual longe das urnas a partir de 1966. Antes de César Cals já tinha sido governador indicado o advogado e servidor público Plácido Aderaldo Castelo. O padrinho político do filho de Mombaça foi o senador Paulo Sarasate, que havia morrido em 1968.
Ernesto Geisel houvera assumido a presidência da república em 15 de março de 1974, tornando-se o quarto general a ocupar o cargo desde o golpe de 1964. Mesmo estando os três coronéis abrigados na legenda da situação, havia entre eles uma guerra surda pela ocupação de espaço político no estado. Prova disso é que nas eleições parlamentares e de prefeitos, a exceção das capitais, havia as sublegendas. A Arena 1, a Arena 2 e a Arena 3. Cada uma de um coronel/político.
César Cals estava em final de mandato e quis bancar sozinho a candidatura do engenheiro civil, Edilson Távora, que vinha de quatro mandatos de deputado federal. Além de não ser candidato de consenso, Edilson, apesar do parentesco com o senador Virgílio, era desafeto deste. Dizem até que o dissentimento entre os primos era de ordem familiar. A indiferença virgilista era tão grande que o senador passou boa parte do tempo da campanha para senado
fora do Ceará. O coronel Adauto também não via com bons olhos a candidatura de alguém intimamente ligado ao governador sainte.
Com efeito, Edilson Távora foi cristianizado e perdeu a eleição de 1974 para Mauro Benevides, beneficiário do apoio, por baixo dos panos, de Adauto e Virgílio. Mauro, aos 44 anos, já era considerado uma raposa política astuta, formado nas hostes do velho PSD de tantas batalhas eleitorais, quando exerceu mandatos de vereador e deputado estadual, tendo sido presidente ainda da Assembleia Legislativa. Um político passado na casca do alho, cuja característica maior era a conciliação, por isso mesmo acusado pelos adversários de ser “murista.”A “zebra” para o Brasil e o partido dos generais, que contabilizavam vitória no Ceará, não causou espécie em terras alencarinas, onde o sucesso eleitoral do emedebista suscitou espanto apenas aos incautos da política.
Uma adenda importante: nas eleições parlamentares daquele ano, a Arena levou uma surra nas urnas de criar bicho. Das 22 cadeiras de senador em disputa no Brasil, o MDB ganhou 16 e a Arena apenas 6. O cadafalso da derrota sobrou para o senador Petrônio Portela, então presidente nacional da Arena. O político piauiense foi apontado, por muitos dentro do regime, como o grande responsável pela derrota acachapante do partido da ditadura. O troféu do revés no Ceará coube a César Cals, dos 3 coronéis o sem cintura no jogo da política, atividade humana tão bem descrita por Voltaire: “ A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário