Correr e o melhor remédio.

No filme Para sempre Alice, pelo qual Julianne Moore ganhou o Oscar de melhor atriz este ano, o neurologista faz uma recomendação para a personagem, diagnosticada com Alzheimer precoce: faça bastante exercícios. Não por acaso o médico lhe oferece esse conselho. Recentemente, a pesquisadora norte-americana Beth Levine, comprovou o exercício físico não apenas favorece a oxigenação do cérebro, melhorando suas funções, mas também age diretamente nas células, o que ajuda a adiar sintomas de demências e até mesmo a degeneração neurológica.

PENSE em uma medicação acessível, barata e sem contra indicação, capaz de combater com eficiência problemas cardíacos, derrames, diabetes, obesidade, câncer, sintomas da doença de Alzheimer e de depressão. Ainda mais: favorece o aprendizado e a memória, melhora a capacidade de concentração e o humor. E tem o potencial para evitar mortes prematuras mais do que qualquer outro tratamento único, sem nenhum dos efeitos colaterais das medicações em geral.

Parece impossível? Nada disso. Nos últimos anos, vários de estudos têm mostrado que o exercício aeróbico regular – e em especial a corrida – não só traz benefícios para a saúde física e mental, como também ajuda a viver por mais tempo.  “A atividade física é uma droga milagrosa”, diz pesquisador Erik Richter, especialista em diabetes da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. “Provavelmente não há apenas um único órgão do corpo que é afetado positivamente por ela.”
O fato é que os seres humanos foram ativos por muito tempo ao longo da evolução. Aliás, quanto mais corressem, mais tinham chances de sobreviver e passar seus genes para descendentes. Por séculos e séculos nossos ancestrais perseguiram presas como caçadores-coletores e fugiram dos predadores. Mais recentemente, trabalharam em fazendas e fábricas. Mas o declínio do trabalho agrícola e industrial, bem como a invenção do automóvel e uma infinidade de dispositivos que nos fazem economizar movimentos – como a TV, os controles remotos, os elevadores, os computadores e os jogos de vídeo – nos trouxeram uma espécie de paralisação repentina e catastrófica. É como se nas últimas décadas tivéssemos adoecido de sedentarismo.
“Fomos feitos para ser ativos, mas a forma como nosso ambiente e estilo de vida se transformaram e com isso surgiram doenças que antes não tínhamos”, afirma o professor de medicina do esporte Christopher Hughes, da Universidade de Londres.
Pesquisadores da Universidade da Carolina do Sul, em Columbia (EUA), realizaram um experimento com mais de 50 mil homens e mulheres e chegou a uma conclusão importante: a falta de aptidão cardiorrespiratória, desenvolvida com a prática da corrida, foi o fator de risco mais importante para morte precoce, aparecendo em 16% dos casos como causa decisiva para as mortes de homens e mulheres ao longo do período de estudo – mais do que as contribuições combinadas de obesidade, diabetes e colesterol alto, ultrapassando até mesmo o fumo, responsável por 8% dos óbitos.
Um relatório divulgado pela Organização de Diabetes do Reino Unido revela que em 1935, quando a população mundial era pouco mais de 2 bilhões de pessoas, cerca de 15 milhões de tinham o tipo 2 da doença. Até 2010, quando a quantidade de habitantes do planeta tinha aumentado mais de três vezes, o número de pacientes com diabetes já chegava a 220 milhões, com previsão de 300 milhões previsto para daqui a dez anos.
O preço que pagamos pela inatividade é alto. O Ministério da Saúde divulgou pesquisa com dados preocupantes: que quase metade da população brasileira está acima do peso. Segundo o estudo, 42,7% da população estava nessa condição em 2006. Em 2011, o número passou para 48,5%. O levantamento é da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Durante o levantamento, foram coletadas informações em 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. Segundo a endocrinologista Rosana Radominski, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), os novos resultados não são novidade. “O dado agravante é o aumento de mais de 0,5% do excesso de peso e da obesidade em um ano. Isso é alarmante, se formos extrapolar os dados para os próximos dez anos”, alerta a médica.
A boa notícia é que é possível fazer algo nem tão complicado para reverter esse quadro. Uma das mais recentes e promissoras descobertas da medicina é que doses frequentes de exercício moderado reduzem o risco de morte prematura por doença cardíaca em 40%.
Mesmo no caso de doenças graves a atividade física pode funcionar como fator de proteção. Um estudo coordenado por cientistas da Universidade Southwestern Medical Center, em Dallas (EUA), por exemplo, mostrou que o exercício estimula as células a queimar o “lixo”, no qual costuma estar incluindo DNA defeituoso ou mutante que pode desencadear o câncer. Apenas 15 minutos dedicados por dia aos exercícios físicos – metade do mínimo diário de 30 minutos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – garantem um ganho enorme: em média, três anos a mais de vida.
Foi o que mostrou um trabalho desenvolvido em Taiwan, na China, no qual foi acompanhado durante oito anos um número impressionante de pessoas: 400 mil, de variadas idades. Embora outras investigações sejam necessárias para confirmar esses dados, os cientistas estão entusiasmados com as conclusões. Para eles, mesmo reduzida, a atividade física diária ainda trouxe ganhos significativos para homens e mulheres, jovens e idosos, fumantes e não fumantes e até mesmo para grupos de alto risco como diabéticos e hipertensos”.
Outro estudo, coordenado da Universidade de Queensland, na Austrália, revela mais um dado impressionante: seis horas de sedentarismo por dia sem contar o período de sono – diminui, em média, cinco anos na vida de uma pessoa. O curioso é que uma das desculpas mais comuns dos sedentários é que não têm tempo para se exercitar. Mas é justamente a atividade física que pode garantir mais tempo às pessoas.
FAZ BEM PRA CABEÇA
No filme Para sempre Alice, pelo qual Julianne Moore ganhou o Oscar de melhor atriz este ano, o neurologista faz uma recomendação para a personagem, diagnosticada com Alzheimer precoce: faça bastante exercícios. Não por acaso o médico lhe oferece esse conselho. Recentemente, a pesquisadora norte-americana Beth Levine, comprovou o exercício físico não apenas favorece a oxigenação do cérebro, melhorando suas funções, mas também age diretamente nas células, o que ajuda a adiar sintomas de demências e até mesmo a degeneração neurológica.
Em 1999, a cientista Henriette vam Praag, pesquisadora do Instituto Nacional dos Estados Unidos sobre Envelhecimento, descobriu que os ratos que se exercitavam em suas gaiolas, usando uma roda de corrida, desenvolviam as células do hipocampo, uma parte do cérebro vital para a memória. “Animais que se exercitaram diariamente por cerca de um mês tiveram uma duplicação e até triplicação dos neurônios dessa região”, conta ela.




matéria publicada na ed. 23 do Jornal Corrida
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