Viagem e Mecânica Emergencial das bicicletas

Fonte : Revista bicicleta
Causos de Viagem e Mecânica Emergencial
Recentemente a Revista Bicicleta (edição 20) publicou um artigo interessante sobre um problema que me parece comum em grandes viagens. “Misteriosamente” a coroa segura a corrente ao invés de liberá-la ao final do círculo. Os gringos chamam isto de chain suck.
Geralmente o problema começa pela coroa do meio, que costuma ser a mais utilizada na bike. Os dentes dela são “amassados” e desgastados pela corrente que quanto mais gasta, mais cava o dente da coroa, tornando-o curvo, formando um arco como um gancho. 
É este “gancho” que agarra a corrente e a puxa para cima. Quando a coroa agarra a corrente, o ciclista deve parar a bike imediatamente, se continuar pedalando poderá, facilmente, quebrar o passador de marchas.
Foi assim que aconteceu com nossa amiga, a lendária Renata Falzoni. Digo lendária pois é justamente assim que se formam as lendas, as pessoas vão falando coisas extraordinárias de alguém, logo ninguém mais sabe se é verdade ou mentira, mas podem acreditar, tudo o que vou dizer aconteceu de verdade.
Estávamos no último dia de uma viagem-manifestação em favor do novo Código de Trânsito (janeiro de 1998), saímos de Parati e estávamos nas portas de Brasília para sermos recebidos pelo presidente Fernando Henrique. A Renata já havia reclamado de chain suck durante a viagem, aliás, foi assim que descobri que aquilo tinha nome.
Com tanta emoção e empolgados em conversas, surgiu uma pequena inclinação no caminho e quando a Renata levantou do selim para forçar o pedal, “crak”, o passador partiu em dois.
Na época éramos o único grupo social que estava fazendo alguma manifestação de apoio ao novo código, afinal, pela primeira vez, tínhamos leis que asseguravam direitos e obrigações aos ciclistas, no mais, todos falavam mal do código devido às novas e pesadas multas. Talvez tenha sido este o motivo da Renata ter conseguido fazer o presidente receber nosso pequeno grupo de sete ciclistas. Mas com certeza, nada faria o presidente quebrar seu protocolo e esperar a gente nem por um minuto.
Em uma situação onde você quebra a gancheira ou o passador, a solução emergencial mais simples para continuar viagem é utilizar uma chave de corrente (que sempre levo comigo) (foto 01) e retirar um bom pedaço da corrente, ajustando-a para trabalhar com uma única coroa e uma única catraca. Antigamente as bicicletas só tinham uma velocidade, ainda dá pra fazer como faziam os antigos competidores do Tour de France, descer da bicicleta e trocar manualmente a corrente.
Entretanto, pelos nossos cálculos e as informações do pessoal do cerimonial, não parecia que teríamos tempo para tudo isto. Foi um momento difícil. As decisões eram sempre tomadas em grupo, mas a Renata era nossa “chefa”, seu carisma era o fator aglutinador de todos os ciclistas do grupo. Por outro lado, nosso movimento chamado “Pedala Brasil, pedalar é um direito” estava chegando a seu ápice. Não poderíamos perder a oportunidade de concluir com cobertura nacional este movimento.
Pensando nisto e diante do câmbio quebrado, a Renata declarou: "vocês tem que ir sem mim, eu vou tentar achar uma bicicletaria, concertar a bicicleta e encontro vocês depois". Os seis ciclistas que, depois de passar tantas experiências por 17 dias na estrada já eram amigos, olharam um para o outro e disseram uma frase que me emociona até hoje: "a gente só vai se for junto!"
Felizmente Brasília fica dentro do território brasileiro, onde tudo costuma atrasar “um pouquinho”. Nós conseguimos achar uma bicicletaria, trocamos o passador e chegamos a tempo de sermos recebidos pelo batalhão de motociclistas que nos escoltaram ao som da banda marcial, tocando o tema do Airton Senna. Que emoção! (Foto 02)
Participantes do movimento “Pedala Brasil, pedalar é um direito” na foto, da direita para esquerda:
Renata Falzoni, jornalista e videorepórter.
Leandro Simões, velocista.
Claudio Civatti, participou somente de algumas partes. 
Milton Golveia, organizador de eventos de DH de MTB, guia ciclístico.
Prof. Adir de Lima, campeão ciclístico. Com 70 anos de idade ele acompanhou o grupo sempre com um sorriso no rosto.
Marcos Cesário, presidente do Pumper's Bike Club de Mogi das Cruzes.
Bill Presada, diretor da ONG Bike Brasil, ativista da bicicleta.
Eu
Gunter Bantel, o pai das leis sobre bicicleta dentro do código. Foi ele quem batalhou para que fossem incluídas.

Bem, agora vamos à prática. 

Se estiver em uma viagem longa onde não puder ou não quiser trocar a coroa, você terá que conseguir uma lima. Não é uma ferramenta que aconselho carregar, pois é pesada e será utilizada somente em uma ocasião muito especial. Você terá que contar com a solidariedade alheia e emprestar uma.
As melhores limas para fazer este serviço são as cilíndricas, muito utilizadas no campo para afiar os dentes de motosserras. Se não puder encontrar uma pode ser uma lima comum, que também é utilizada no campo para afiar instrumentos cortantes como a foice.
A lima não desgasta o metal se tiver qualquer rastro de graxa ou óleo, sendo assim, limpe a coroa da melhor forma que conseguir, isto ajuda também a encontrar os dentes gastos (foto 03).
Desgaste a ponta em “gancho” dos dentes mais usados, copiando o formato dos dentes menos desgastados. Eles ficarão ainda menores e mais gastos, mas se não tiverem a forma de gancho não prenderão a corrente.
Desgaste também as partes “amassadas” conforme foto 04. 
O resultado final será como o da foto 05.
Claro, o trabalho é emergencial, mas pode te manter pedalando com menos riscos por algum tempo até que possa trocar as peças.

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